"A vida voa na sua cara, esbarra no seu rosto, suja sua vaidade, corrompe suas certezas, e você não pode fazer nada. A não ser lavar o rosto e começar tudo de novo." (Tati Bernardi)
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Meu ensino fundamental
Ensino fundamental me lembra o Cavlac, colégio que eu estudei da primeira à sétima série. Lembro do primeiro dia que eu entrei lá, para fazer uma "provinha". Várias crianças do meu tamanho fazendo a mesma prova, alguns eu já conhecia da escolinha e outros eu olhava com curiosidade. Fui a primeira da sala a terminar a prova e me achei A inteligente, mas aí descobri que foi porque esqueci de fazer um exercício enorme de separação de sílabas (¬¬).
O colégio era pequeno, de bairro, então todo mundo acaba conhecendo todo mundo, em algum momento. E para piorar, minha mãe fazia o transporte escolar para essa escola, então todo mundo sabia que eu era irmã da Lê e filha da Adriana. Meu sonho era ir pra escola sozinha, e não sendo carregada pela minha mãe. Até que lá pela quinta série ela achou que eu e minha irmã poderíamos voltar sozinhas, a pé, e eu fiquei feliz só na primeira semana.
Nessa época a gente descobre tanta coisa e aprende tanta coisa, inclusive coisa errada. Lembro quando descobrimos sobre sexo (eu, o fábio e a maria alice) e trocávamos informações completamente sem sentido sobre o assunto. Coitadinhos. Foi na biblioteca do colégio que eu dei meu primeiro beijo na boca, foi durante o intervalo das aulas que eu esperava ver o menino bonitinho do ensino médio e dar risadinhas. Enfim, essas bobagens.
Foram anos bons, mais ou menos. Sempre fui boa aluna, mas nunca gostei de estudar. No início eu não perdia nenhuma aula. Minha mãe pedia pra eu faltar para irmos viajar, ou porque estava muito frio, ou muito calor, ou porque simplesmente era sexta-feira, e eu ficava revoltada. Alguns anos depois eu já estava cabulando aula pra ficar na biblioteca, lendo livros aleatórios ou ouvindo música.
Ainda bem que acabou. Porque olha, aquele uniforme verde não valorizava muito. Ainda bem que eu não tenho uma foto disso.
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
foto antiga de família
Essa é a foto mais tradicional da minha família e a que nos representa melhor.
Eu devia ter uns quatro e minha irmã uns cinco anos. Meus pais com uns 22, 23, parecem adolescentes até hoje. Sempre com a latinha na mão, festejando, brincando, rindo, com nós duas a tiracolo. Eles viviam (e acho que vivem até hoje), se beijando por aí. A gente vive perguntando: "vocês se conheceram agora?". Porque eles são muito apaixonados. Dois adolescentes que engravidaram sem querer, casaram com o barrigão e dois meses depois do nascimento da primeira, a segunda já tava na barriga. É uma loucura pra quem não planejou nada e não tinha um gato pra puxar pelo rabo.
Os primeiros anos foram os mais difíceis, mas eles se esforçaram tanto e trabalharam tanto que quando eu e minha irmã começamos a ter noção das coisas, tínhamos uma vida confortável. Sempre viajamos, sempre tivemos festinhas de aniversário, sempre comemoramos cada coisinha boba com alegria e cerveja.
Meu pai é a melhor pessoa do mundo. Ele é muito bom. Abre mão de qualquer coisa por nós, está sempre alegre, acorda todos os dias de bom humor, não se estressa no trânsito, é extremamente carinhoso e engraçado. E embora tenha dito a vida toda que se não nos comportássemos, tomaríamos banho gelado e choque, é difícil de acreditar quando ele fala com aquela voz de "eu te amo muito".
Muito do que somos, hoje, devemos a ele. Ele tem um emprego sério e perigoso, e é impressionante como ele consegue separar bem as coisas. Perto dele, eu não tenho medo de absolutamente nada.
Minha mãe é incrível. Sério. Não dá pra acreditar nas coisas que essa mulher fala, pensa e faz. Ela é muito rápida, muito inteligente. De um olhar ela já percebe tudo que tem de errado. Ela é super protetora, embora não demonstre muito. Ela é guerreira. Faz de tudo por nós. Cuida de nós três, administra o dinheiro da casa toda, dá os melhores conselhos. A gente fala que ela é intrometida, mas não saberíamos o que fazer sem a opinião dela. Quando eu não sei o que fazer, nunca desespero. É só ligar pra ela.
Sobre a Letícia, não tenho palavras. Minha irmã. Um pedacinho do meu pai e da minha mãe. Tem como não amar mais que qualquer coisa na vida?
O mais importante de tudo, somos extremamente unidos. Nós quatro, somos uma coisa só. Independente de qualquer coisa, somos amigos, conversamos sobre tudo, damos muito risada, tiramos sarro um do outro, cuidamos uns dos outros. Amo fazer parte dessa família e tenho muito orgulho por tê-los tão meus e comigo. <3
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
alguém que marcou a sua vida
Eu tive uma aluna, a Camila. Ela tinha 20 anos, trabalhava, namorava, tinha um irmãozinho de seis que fazia aula no mesmo horário que ela, pra eles irem e voltarem juntos.
Ela tinha uma dificuldade grande para aprender inglês, mas era a mais esforçada, e nunca se deixava abater por ser a última da turma e conseguir compreender algo ou pronunciar alguma coisa. Ela estava sempre sorrindo. Sempre.
Ela fazia faculdade e no meio do nosso semestre, conseguiu um estágio maravilhoso. Chegou super animada, dizendo que agora conseguia ganhar o suficiente pra pagar a faculdade e pra planejar o casamento. Conseguiu o estágio por causa do pouco inglês que tinha aprendido naqueles meses, e me agradeceu até não poder mais. No nosso intervalo, íamos na lojinha do lado comer brigadeiro, a turma toda.
Ela era muito alto astral. Animava todo mundo que chegava dormindo ou de ressaca (inclusive a professora aqui) no sábado de manhã. Ela era, por mais irônico que isso pareça agora, cheia de vida. Cheia de alegria, de vontade de viver mesmo. Dava pra sentir. Até que um dia ela não apareceu mais. Foi viajar e morreu num acidente de carro, na Tamoios. Ela, o namorado e a cunhada, que estavam no mesmo carro, morreram na hora. Um caminhão vinha na direção deles, o carro da frente, onde estavam os pais dela, conseguiu desviar, e acertou o carro deles em cheio. E fim.
A Camila me marcou não só por ser uma pessoa muito nova, cheia de planos, que teve a vida interrompida. Mas porque só aí eu me dei conta de como, de repente, tudo pode mudar.
Não tenho uma foto dela. Deixo aqui o link da notícia da morte, infelizmente.
http://portaldecaragua.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1815&Itemid=80
Ela tinha uma dificuldade grande para aprender inglês, mas era a mais esforçada, e nunca se deixava abater por ser a última da turma e conseguir compreender algo ou pronunciar alguma coisa. Ela estava sempre sorrindo. Sempre.
Ela fazia faculdade e no meio do nosso semestre, conseguiu um estágio maravilhoso. Chegou super animada, dizendo que agora conseguia ganhar o suficiente pra pagar a faculdade e pra planejar o casamento. Conseguiu o estágio por causa do pouco inglês que tinha aprendido naqueles meses, e me agradeceu até não poder mais. No nosso intervalo, íamos na lojinha do lado comer brigadeiro, a turma toda.
Ela era muito alto astral. Animava todo mundo que chegava dormindo ou de ressaca (inclusive a professora aqui) no sábado de manhã. Ela era, por mais irônico que isso pareça agora, cheia de vida. Cheia de alegria, de vontade de viver mesmo. Dava pra sentir. Até que um dia ela não apareceu mais. Foi viajar e morreu num acidente de carro, na Tamoios. Ela, o namorado e a cunhada, que estavam no mesmo carro, morreram na hora. Um caminhão vinha na direção deles, o carro da frente, onde estavam os pais dela, conseguiu desviar, e acertou o carro deles em cheio. E fim.
A Camila me marcou não só por ser uma pessoa muito nova, cheia de planos, que teve a vida interrompida. Mas porque só aí eu me dei conta de como, de repente, tudo pode mudar.
Não tenho uma foto dela. Deixo aqui o link da notícia da morte, infelizmente.
http://portaldecaragua.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1815&Itemid=80
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
saudade
Não sei como é possível alguém sentir falta de ter um cabelo desse. Viva a escova progressiva. Mas do que eu sinto falta, na verdade, era andar grudada na minha irmã como se a gente fosse siamesa. Usávamos o mesmo cabelo, as roupas eram iguais, e eu era como uma sombra dela. Alguns centímetros menor, eu via tudo que ela fazia pra fazer igual. Só quando a gente comia sobremesa, que eu devorava a minha em trinta segundos (sempre gulosa) e ela comia devargaaaarzinho, como se não houvesse amanhã. E eu olhando, babando, com cara de quero mais e ela com cara de quem mandou ser gulosa?
Eu nasci duas semanas antes da minha irmã fazer um ano. Quando você tem um irmão que faz aniversário no mesmo mês que você, e seus pais não têm dinheiro sobrando, a festa de aniversário vai ser uma só. E é muito menos desconfortável quando começam a cantar parabéns e você não é a única passando vergonha.
Além das roupas serem as mesmas, os presentes também eram os mesmos. Mas eu achava o máximo.
Sinto saudade de quando a gente tava junta o tempo todo. Usando a mesma roupa, indo pra escola, pro karatê, pra natação, pro clube, pra baladinha matinê, pro cinema. Saudade de quando a nossa vida era a mesma, quando a gente ouvia o carro da minha mãe virando a esquina e arrumava a casa em treze segundos. De quando a gente assistia Lagoa Azul na sessão da tarde, queimava brigadeiro na panela, dividia o tempo na internet discada.
Agora eu sou casada e vejo minha irmã aos fins de semana. Pois é.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
momento preferido da História
Eu nasci em 1991. Não é como se eu tivesse presenciado mil momentos históricos importantes e emocionantes e etc. Lembro da copa do mundo de 2002, que aconteceu na Coréia e os jogos eram em horários bizarros, tipo três da manhã. Minha família se reunia na casa da vó pra comer pipoca, tomar café preto e ver o jogo, e nos intervalos a gente discava números aleatórios, as pessoas atendiam com voz de sono e a gente perguntava: "Cara, você não dá vendo o jogo? Que falta de patriotismo!". Na época a gente achava engraçado.
Felizmente, não tenho uma foto desse momento pra compartilhar, porque olha. Eu tinha acabado de completar 11 anos e meu cabelo parecia uma couve-flor.
***
Nem sei se posso considerar isso um momento histórico, mas como já disse aqui, essa cirurgia mudou minha vida.
Essa cirurgia corrigiu muito do que tava errado comigo. Agora só falta perder mil quilos pra olhar no espelho e ficar feliz. E operar as vistas, que a miopia já encheu saco. E consertar a falha que eu tenho na franja. E nunca mais ter cravos. E ter as coxas menos gordas. E ah, deixa pra lá.
***
O intercâmbio me fez muito feliz. Foi um sonho que eu realizei, uma coisa que eu planejei durante muito tempo e deu tudo certo. Amei tudo, aproveitei tudo e sempre lembro de cada dia que passei lá, revejo as fotos, leio a minha agenda de viagem, porque é muito fácil, no meio de tanta coisa acontecendo hoje, esquecer o que passou. Principalmente quando é bom, muito bom.
Felizmente, não tenho uma foto desse momento pra compartilhar, porque olha. Eu tinha acabado de completar 11 anos e meu cabelo parecia uma couve-flor.
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Nem sei se posso considerar isso um momento histórico, mas como já disse aqui, essa cirurgia mudou minha vida.
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| antes |
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| depois |
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O intercâmbio me fez muito feliz. Foi um sonho que eu realizei, uma coisa que eu planejei durante muito tempo e deu tudo certo. Amei tudo, aproveitei tudo e sempre lembro de cada dia que passei lá, revejo as fotos, leio a minha agenda de viagem, porque é muito fácil, no meio de tanta coisa acontecendo hoje, esquecer o que passou. Principalmente quando é bom, muito bom.
E, como eu sou uma pessoa muito bacana e coisas maravilhosas acontecem comigo, coincidentemente (juro), fui a Londres no mês que aconteceu a premiere do sexto filme do Harry Potter.
Faltei na aula e fiquei umas sete horas ali, em pé, esperando. E até aí tudo bem, até que começou a chover. E depois começou a chover granizo. E eu passei um friozão! Mas valeu a pena. Adorei ver todos, ouvir as entrevistas, vi o quanto "o harry" é baixinho e o quanto "o dumbledore" é novo! E aquela musiquinha começa a tocar e dá um friozinho na barriga de quem gosta e acompanha desde o primeiro. Uma semana depois, fui ao mesmo cinema da premiere e assisti, sozinha, a estréia. Chorei, ri e sai do cinema feliz.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
das panelas queimadas
Eu tinha uns sete anos. Não, oito. Não, sete mesmo, e pedi pra minha irmã pra gente fazer (leia-se: ela fazer e eu ficar olhando e perguntando "tá pronto?" "e agora?") brigadeiro na panela. Achamos os ingredientes, a lata de leite moça que minha mãe comprava pra fazer pudim no fim de semana, mas que nunca sobrevivia até ele, o nescau e etc. Na euforia de comer logo, pegamos qualquer panela. E foi nessa hora que entramos numa das maiores encrencas da história.
Pegamos a caneca que minha mãe usava pra fazer café, todos os dias. Eis que o brigadeiro queimou. Talvez minha irmã tenha se irritado com minhas perguntas de dois em dois segundos, distraiu da panela (ou melhor, caneca) pra brigar comigo e o brigadeiro queimou. Que desperdício. Mas a gente comeu assim mesmo. Evitamos as bordas e comemos direto da panela. Chegou no fundo da panela e no fim no brigadeiro, descobrimos que tava tudo grudado, preto e horrível. Lavamos (leia-se: minha irmã lavando, esfregando, suando e eu olhando e perguntando "saiu?" "e agora?"), lavamos, lavamos e nada. O desespero típico de crianças de oito (ou sete) anos tomou conta da gente. E agora, o que é que a gente vai falar pra mãe?
Veja bem, não éramos crianças obesas nem nada. Éramos muito magrinhas (bons tempos). Mas o problema seria ter acabado com o leite moça que minha mãe tinha comprado pra fazer o pudim. Já conhecíamos essa novela. E aí tomamos a atitude mais inteligente que duas crianças de sete (ou oito) anos poderiam tomar: decidimos esconder a panela (ou caneca). Feito isso, fomos dormir felizes e de barriguinhas cheias de brigadeiro com uma pitada de queimado. Tudo lindo, a vida é boa, afinal de contas.
E aí que minha mãe começou a dar falta da panela na manhã seguinte. E por todas as outras manhãs também. E ela não se conformava. Minha mãe tem uma ótima memória. Ela nunca deixa nada passar. Aprendemos isso nessa época. E todo dia ela falava da panela. Até que chegamos a mais temível conclusão: precisamos contar. Mas contar como? Ela vai matar a gente! Primeiro pelo pudim perdido, depois pela panela escondida, e depois por não termos dito nada até agora. Mas vamos contar. Contamos. Não lembro como. Ela riu. Riu muito e contou pra todo mundo e todo mundo riu. Ficamos envergonhadas, porque todo mundo tava rindo da nossa cara, mas melhor que encarar a fúria da minha mãe.
**
Domingo passado, eu decidi que queria comer pipoca assistindo House enquanto meu marido dormia. Tinha dois saquinhos de pipoca para microondas em casa e aí eu lembrei que não tenho um microondas. Ganhei, veio quebrado, não abri a tempo de trocar na loja, assistência só depois do ano novo, enfim. Tive a brilhante idéia de fazer no forno elétrico. Uns 40 minutos depois descobri que o forno queima o papel da pipoca de microondas. Cheiro de queimado por toda parte.
Peguei o segundo saquinho e decidi que era só cortar o saquinho e fazer na panela. Genial. Descobri que pipocas de microondas são nojentas porque além do milho vem uma gosminha junto, que parece sei lá, maionese. Coloquei o milho e a gosminha na panela, um pouquinho só de óleo, porque já tava nojentinho demais, e liguei o fogo. Entrei em desespero quando vi que a panela não tinha tampa por perto. Peguei a tampa da Grill e tampei. Como era de vidro, fiquei encantada de ver os milhos virando pipoquinhas e pulando e fazendo barulhinho. Nessa de parecer uma idiota vendo a pipoca pular, deixei queimar. O fundo da panela ficou todo preto e muitas pipoquinhas também.
Lavei a panela, esfreguei, suei e nada. Eu não podia esconder a panela na minha própria casa, né? O marido jamais se daria conta de que tem uma panela faltando, mas né. Deixei dentro da pia, com água dentro.
**
Uma parte de mim vai ter sempre sete (ou oito) anos.
Pegamos a caneca que minha mãe usava pra fazer café, todos os dias. Eis que o brigadeiro queimou. Talvez minha irmã tenha se irritado com minhas perguntas de dois em dois segundos, distraiu da panela (ou melhor, caneca) pra brigar comigo e o brigadeiro queimou. Que desperdício. Mas a gente comeu assim mesmo. Evitamos as bordas e comemos direto da panela. Chegou no fundo da panela e no fim no brigadeiro, descobrimos que tava tudo grudado, preto e horrível. Lavamos (leia-se: minha irmã lavando, esfregando, suando e eu olhando e perguntando "saiu?" "e agora?"), lavamos, lavamos e nada. O desespero típico de crianças de oito (ou sete) anos tomou conta da gente. E agora, o que é que a gente vai falar pra mãe?
Veja bem, não éramos crianças obesas nem nada. Éramos muito magrinhas (bons tempos). Mas o problema seria ter acabado com o leite moça que minha mãe tinha comprado pra fazer o pudim. Já conhecíamos essa novela. E aí tomamos a atitude mais inteligente que duas crianças de sete (ou oito) anos poderiam tomar: decidimos esconder a panela (ou caneca). Feito isso, fomos dormir felizes e de barriguinhas cheias de brigadeiro com uma pitada de queimado. Tudo lindo, a vida é boa, afinal de contas.
E aí que minha mãe começou a dar falta da panela na manhã seguinte. E por todas as outras manhãs também. E ela não se conformava. Minha mãe tem uma ótima memória. Ela nunca deixa nada passar. Aprendemos isso nessa época. E todo dia ela falava da panela. Até que chegamos a mais temível conclusão: precisamos contar. Mas contar como? Ela vai matar a gente! Primeiro pelo pudim perdido, depois pela panela escondida, e depois por não termos dito nada até agora. Mas vamos contar. Contamos. Não lembro como. Ela riu. Riu muito e contou pra todo mundo e todo mundo riu. Ficamos envergonhadas, porque todo mundo tava rindo da nossa cara, mas melhor que encarar a fúria da minha mãe.
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Domingo passado, eu decidi que queria comer pipoca assistindo House enquanto meu marido dormia. Tinha dois saquinhos de pipoca para microondas em casa e aí eu lembrei que não tenho um microondas. Ganhei, veio quebrado, não abri a tempo de trocar na loja, assistência só depois do ano novo, enfim. Tive a brilhante idéia de fazer no forno elétrico. Uns 40 minutos depois descobri que o forno queima o papel da pipoca de microondas. Cheiro de queimado por toda parte.
Peguei o segundo saquinho e decidi que era só cortar o saquinho e fazer na panela. Genial. Descobri que pipocas de microondas são nojentas porque além do milho vem uma gosminha junto, que parece sei lá, maionese. Coloquei o milho e a gosminha na panela, um pouquinho só de óleo, porque já tava nojentinho demais, e liguei o fogo. Entrei em desespero quando vi que a panela não tinha tampa por perto. Peguei a tampa da Grill e tampei. Como era de vidro, fiquei encantada de ver os milhos virando pipoquinhas e pulando e fazendo barulhinho. Nessa de parecer uma idiota vendo a pipoca pular, deixei queimar. O fundo da panela ficou todo preto e muitas pipoquinhas também.
Lavei a panela, esfreguei, suei e nada. Eu não podia esconder a panela na minha própria casa, né? O marido jamais se daria conta de que tem uma panela faltando, mas né. Deixei dentro da pia, com água dentro.
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Uma parte de mim vai ter sempre sete (ou oito) anos.
sábado, 24 de dezembro de 2011
merry christimas what?
O que a gente deveria sentir na noite de Natal? Esperança? E o que a gente deve desejar aos outros? O que a gente deve dizer depois do "Feliz Natal"? Se eu desejar paz, saúde, prosperidade, o que eu vou dizer para essa mesma pessoa no ano novo? Desejar tudo de novo?
**
Na festa de Natal na minha família, nesse ano, apareceu uma pessoa que eu não conhecia. Irmão de uma tia. Ele tem uma história de vida triste, eu já tinha ouvido falar. Mas nenhuma tragédia justifica (ou justifica, vai saber, cada um sabe o tamanho da dor que carrega) o tamanho, a intensidade da tristeza que ele exala. Na verdade não me parecia nem tristeza. Ele parecia simplesmente vazio. Ou desesperado. Como alguém que tivesse passado anos sozinho, e aquela fosse a sua primeira aparição em público, sua primeira tentativa de socializar de novo, depois de perder tanto.
A minha vontade era falar pra ele: moço, calma. Vai ficar tudo bem. Mas quem sou eu? Eu não sei se vai ficar tudo bem. Não sei se ele vai se achar, se ele vai conseguir ficar em paz, se é que é isso que ele quer.
**
Nesse Natal eu não senti esperança. Talvez pelo homem, que foi pra mim uma amostra viva de tudo que está errado no mundo. Não quero ser levada a mal, foi uma noite de Natal feliz. Eu tenho tudo para ser feliz todos os dias. Tenho meus pais, que são pessoas incríveis. Minha irmã, que me tirou no amigo secreto (e eu também a tirei). Todos os avós, me desejando tudo de bom. Meu marido, que embora ateu, me deseja feliz natal a meia noite, porque respeita minha crença. Mas hoje, voltando pra casa, eu me peguei pensando: que crença?
**
Na festa de Natal na minha família, nesse ano, apareceu uma pessoa que eu não conhecia. Irmão de uma tia. Ele tem uma história de vida triste, eu já tinha ouvido falar. Mas nenhuma tragédia justifica (ou justifica, vai saber, cada um sabe o tamanho da dor que carrega) o tamanho, a intensidade da tristeza que ele exala. Na verdade não me parecia nem tristeza. Ele parecia simplesmente vazio. Ou desesperado. Como alguém que tivesse passado anos sozinho, e aquela fosse a sua primeira aparição em público, sua primeira tentativa de socializar de novo, depois de perder tanto.
A minha vontade era falar pra ele: moço, calma. Vai ficar tudo bem. Mas quem sou eu? Eu não sei se vai ficar tudo bem. Não sei se ele vai se achar, se ele vai conseguir ficar em paz, se é que é isso que ele quer.
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Nesse Natal eu não senti esperança. Talvez pelo homem, que foi pra mim uma amostra viva de tudo que está errado no mundo. Não quero ser levada a mal, foi uma noite de Natal feliz. Eu tenho tudo para ser feliz todos os dias. Tenho meus pais, que são pessoas incríveis. Minha irmã, que me tirou no amigo secreto (e eu também a tirei). Todos os avós, me desejando tudo de bom. Meu marido, que embora ateu, me deseja feliz natal a meia noite, porque respeita minha crença. Mas hoje, voltando pra casa, eu me peguei pensando: que crença?
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