O que a gente deveria sentir na noite de Natal? Esperança? E o que a gente deve desejar aos outros? O que a gente deve dizer depois do "Feliz Natal"? Se eu desejar paz, saúde, prosperidade, o que eu vou dizer para essa mesma pessoa no ano novo? Desejar tudo de novo?
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Na festa de Natal na minha família, nesse ano, apareceu uma pessoa que eu não conhecia. Irmão de uma tia. Ele tem uma história de vida triste, eu já tinha ouvido falar. Mas nenhuma tragédia justifica (ou justifica, vai saber, cada um sabe o tamanho da dor que carrega) o tamanho, a intensidade da tristeza que ele exala. Na verdade não me parecia nem tristeza. Ele parecia simplesmente vazio. Ou desesperado. Como alguém que tivesse passado anos sozinho, e aquela fosse a sua primeira aparição em público, sua primeira tentativa de socializar de novo, depois de perder tanto.
A minha vontade era falar pra ele: moço, calma. Vai ficar tudo bem. Mas quem sou eu? Eu não sei se vai ficar tudo bem. Não sei se ele vai se achar, se ele vai conseguir ficar em paz, se é que é isso que ele quer.
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Nesse Natal eu não senti esperança. Talvez pelo homem, que foi pra mim uma amostra viva de tudo que está errado no mundo. Não quero ser levada a mal, foi uma noite de Natal feliz. Eu tenho tudo para ser feliz todos os dias. Tenho meus pais, que são pessoas incríveis. Minha irmã, que me tirou no amigo secreto (e eu também a tirei). Todos os avós, me desejando tudo de bom. Meu marido, que embora ateu, me deseja feliz natal a meia noite, porque respeita minha crença. Mas hoje, voltando pra casa, eu me peguei pensando: que crença?
"A vida voa na sua cara, esbarra no seu rosto, suja sua vaidade, corrompe suas certezas, e você não pode fazer nada. A não ser lavar o rosto e começar tudo de novo." (Tati Bernardi)
sábado, 24 de dezembro de 2011
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
2011
2011 foi um ano diferente. Foi um ano lindo, um ano difícil, um ano único.
Minha irmã viajou, passou dez meses longe, voltou. Eu senti muita saudade, chorei muito, deixei de trabalhar pra ficar vendo ela na webcam, me preocupei com ela, torci para que ela ficasse bem, para que ela não se sentisse sozinha. Fiquei feliz por ela ter conhecido pessoas especiais, pessoas que a ajudaram, que fizeram dela uma pessoa melhor, que cuidaram dela e foram cuidadas por ela. Fiquei feliz quando ela apareceu no aeroporto e eu vi no sorriso dela que tava tudo bem, que tudo valeu a pena, e ela me abraçou e eu tava com muita saudade daquele cheirinho de cigarro que nela é até cheiroso.
**
Passei o ano de 2011 construindo uma casa, que finalmente ficou pronta. Eu achava que o sonho da casa própria era coisa de telesena, coisa que eu nunca precisaria me preocupar. Mas aí eu decidi casar e tivemos a sorte de ter onde construir, uma casa do jeitinho que a gente queria, com biblioteca, gramado, varandas, rede, árvore, cachorro destruindo tudo. Só agora eu entendo a importância de ter um cantinho pra descansar, pra ser eu, do jeito que eu quiser. Posso jantar miojo sem ser julgada, tomar banho às 3 da manhã, fazer maratona de seriados madrugada adentro. Posso ter a companhia do Luiz só pra mim, o tempo todo. Amor, tô com sede, vamos comigo buscar água? Vamos. A casa é enorme e a gente anda pra lá e pra cá juntos. A gente ouve um barulho e vai de cômodo em cômodo procurando, pra descobrir que na verdade foi o rodo do nosso banheiro que caiu. A gente acorda e vê o cachorro com cara de sem dono olhando lá pra dentro, eu fico com dó. Deixa o Pirata dormir aqui dentro, vai. E ele entra e fica raspando as unhas no meu piso laminado lindo de morrer e eu fico meio aflita mas tudo bem. Se estragar a gente conserta, pelo menos ele tá feliz. Tá escutando ele roncar? Ele tá dormindo bem. Que bom.
Eu ainda não cozinhei nada, o Luiz faz tudo. Chego e tá tudo brilhando, comidinha pronta, sobremesas preferidas na geladeira. Tem gente que tem marido, eu tenho muito mais.
**
Em 2011 eu casei. Planejei uma festa linda e aconteceu tudo conforme o planejado. Meu pai me levou até o altar e eu nunca vou conseguir escrever sobre a emoção de usar um vestido de noiva, de olhar pra todo mundo que você gosta ali e dizer Sim vendo seu futuro nos olhos da pessoa que você ama, que você escolheu pra ser sua família. Meu pai me disse "Isso tudo é muito estranho, não sei ter filho adulto".
Acho estranho não morar mais "em casa". Sinto falta dos meus pais, da minha irmã, da minha cama de solteiro, mas só quando penso nisso. Amo morar com o Luiz, amo ter com ele a vida que a gente criou pra gente, amo desenvolver costumes novos com ele todos os dias.
**
É isso, 2011. Você me trouxe tanta emoção, tanta alegria. Desesperei várias vezes ao longo desse ano, achei que nada daria certo, que eu não ia aguentar, que era simplesmente muita coisa para uma pessoa tão pequena. Desejei dormir e acordar só quando 2011 acabasse, mas olha, que bom que eu não dormi. Que bom que eu vivi cada dia desse ano, que eu aprendi um milhão de coisas sobre mim e sobre tudo.
2012, seja bonzinho. Traga pra mim a paz e a tranquilidade que 2011 roubou. Me deixa descansar, me deixa viver uma coisa só. Me deixa colocar minha conta bancária em ordem, me deixa dormir bem, por muitas horas, todas as noites. Me deixa entender que eu sou adulta, que eu respondo por mim, que eu sou responsável pelas minhas atitudes. Me deixa discernir, me deixa pensar. Me dê mais tempo pra amar, menos pra surtar. Me deixa pensar mais na solução e menos no problema. Me deixa ser (mais) feliz.
Minha irmã viajou, passou dez meses longe, voltou. Eu senti muita saudade, chorei muito, deixei de trabalhar pra ficar vendo ela na webcam, me preocupei com ela, torci para que ela ficasse bem, para que ela não se sentisse sozinha. Fiquei feliz por ela ter conhecido pessoas especiais, pessoas que a ajudaram, que fizeram dela uma pessoa melhor, que cuidaram dela e foram cuidadas por ela. Fiquei feliz quando ela apareceu no aeroporto e eu vi no sorriso dela que tava tudo bem, que tudo valeu a pena, e ela me abraçou e eu tava com muita saudade daquele cheirinho de cigarro que nela é até cheiroso.
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Passei o ano de 2011 construindo uma casa, que finalmente ficou pronta. Eu achava que o sonho da casa própria era coisa de telesena, coisa que eu nunca precisaria me preocupar. Mas aí eu decidi casar e tivemos a sorte de ter onde construir, uma casa do jeitinho que a gente queria, com biblioteca, gramado, varandas, rede, árvore, cachorro destruindo tudo. Só agora eu entendo a importância de ter um cantinho pra descansar, pra ser eu, do jeito que eu quiser. Posso jantar miojo sem ser julgada, tomar banho às 3 da manhã, fazer maratona de seriados madrugada adentro. Posso ter a companhia do Luiz só pra mim, o tempo todo. Amor, tô com sede, vamos comigo buscar água? Vamos. A casa é enorme e a gente anda pra lá e pra cá juntos. A gente ouve um barulho e vai de cômodo em cômodo procurando, pra descobrir que na verdade foi o rodo do nosso banheiro que caiu. A gente acorda e vê o cachorro com cara de sem dono olhando lá pra dentro, eu fico com dó. Deixa o Pirata dormir aqui dentro, vai. E ele entra e fica raspando as unhas no meu piso laminado lindo de morrer e eu fico meio aflita mas tudo bem. Se estragar a gente conserta, pelo menos ele tá feliz. Tá escutando ele roncar? Ele tá dormindo bem. Que bom.
Eu ainda não cozinhei nada, o Luiz faz tudo. Chego e tá tudo brilhando, comidinha pronta, sobremesas preferidas na geladeira. Tem gente que tem marido, eu tenho muito mais.
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Em 2011 eu casei. Planejei uma festa linda e aconteceu tudo conforme o planejado. Meu pai me levou até o altar e eu nunca vou conseguir escrever sobre a emoção de usar um vestido de noiva, de olhar pra todo mundo que você gosta ali e dizer Sim vendo seu futuro nos olhos da pessoa que você ama, que você escolheu pra ser sua família. Meu pai me disse "Isso tudo é muito estranho, não sei ter filho adulto".
Acho estranho não morar mais "em casa". Sinto falta dos meus pais, da minha irmã, da minha cama de solteiro, mas só quando penso nisso. Amo morar com o Luiz, amo ter com ele a vida que a gente criou pra gente, amo desenvolver costumes novos com ele todos os dias.
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É isso, 2011. Você me trouxe tanta emoção, tanta alegria. Desesperei várias vezes ao longo desse ano, achei que nada daria certo, que eu não ia aguentar, que era simplesmente muita coisa para uma pessoa tão pequena. Desejei dormir e acordar só quando 2011 acabasse, mas olha, que bom que eu não dormi. Que bom que eu vivi cada dia desse ano, que eu aprendi um milhão de coisas sobre mim e sobre tudo.
2012, seja bonzinho. Traga pra mim a paz e a tranquilidade que 2011 roubou. Me deixa descansar, me deixa viver uma coisa só. Me deixa colocar minha conta bancária em ordem, me deixa dormir bem, por muitas horas, todas as noites. Me deixa entender que eu sou adulta, que eu respondo por mim, que eu sou responsável pelas minhas atitudes. Me deixa discernir, me deixa pensar. Me dê mais tempo pra amar, menos pra surtar. Me deixa pensar mais na solução e menos no problema. Me deixa ser (mais) feliz.
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
wedding day
Quando eu vi no celular que era dia três de dezembro de dois mil e onze eu senti um frio na barriga imenso. E dormi. E o dia passou em câmera lenta, shopping, almoço, banho, salão. Comecei a ficar com siricutico quando tava no salão e tava quase na hora de ir pro sítio e ninguém tava pronto ainda. Sorri forçado pras fotos do making off, dei risadas de nervoso, respirei fundo, tomei água. Maquiagem pronta, cabelo pronto, véu na cabeça.
Colocando o vestido com a ajuda de umas três madrinhas. Não fica certo, não fecha direito, tem uma dobrinha. Alguém descobre se o padre já chegou? Se todos os padrinhos estão em fila? Se o mundo não acabou enquanto o vestido parece não fechar? Tudo certo, só falta meu vestido ficar certo. Não fica, ninguém vai perceber, não vou chorar, tá tocando the verve lá embaixo, começou. Respira fundo. Cadê meu pai?
Ele me encontrou no meio da escada, me ajudou a descer, é salto, é cauda, buquê, tô parecendo um bolo. Filha você tá linda. Não vou chorar. Tá tocando minha música. É agora, vamos pai. Fomos. Vi dezenas de rostos, até achar o Luiz. Ele tava lá, de vermelho milan, segurando pra não sorrir. Ele é assim, né. Meu pai me deu um beijo no rosto, o Luiz me deu um beijo na mão e o Padre começou a falar. Eu não cai, não chorei, até aqui tá bom.
Alianças. Benção. Beijo. Cumprimentos (ao som de i'll be there for you), saída. Mil e uma fotos na mesa do bolo. Sede. Me traz uma cerveja enquanto eu tiro foto? Opa, ótimo. Mais fotos. Padrinhos, pais, avós, noivinhos. Subimos, uma mesa de jantar só pra nós dois. Comi meia pizza (que deselegante), tomei cerveja, suco, roubei brigadeiros da mesa de sobremesa. Ok, agora a festa.
Entramos. Retrospectiva. Ri, chorei, apertei a mão do Luiz. Valsa. Dancei com meu pai primeiro, what a wonderful world, ele adora essa música. Foi bem emocionante. Filha, você é a noiva mais linda que eu já vi. Tô apaixonado por você de noiva. Ele chorou, eu chorei. Te amo.
Valsa com o Luiz. Crazy começou a tocar e ele começou a rir: É essa a música que você escolheu??? Mas a gente vai dançar os sete minutos todos?? A gente nem sabe dançar!! Demos um jeito, dançamos, e parecia que só existia nós dois lá, na festa, no mundo. <3
Cumprimentei a festa inteira, tomei umas caipirinhas, e eu olhava pra festa e pensava: eu sonhei isso. Sonhei meses com isso e tá acontecendo. E tá lindo. Eu olhava pra minha mão esquerda o tempo todo, achando estranho a presença da aliança lá. E eu olhava pro Luiz de longe, fazendo farra na gravata, se divertindo, comemorando. Comemorando que agora somos uma família, eu e ele. Foi lindo. E não poderia ter sido melhor.
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| Cara de muitos amigos |
Colocando o vestido com a ajuda de umas três madrinhas. Não fica certo, não fecha direito, tem uma dobrinha. Alguém descobre se o padre já chegou? Se todos os padrinhos estão em fila? Se o mundo não acabou enquanto o vestido parece não fechar? Tudo certo, só falta meu vestido ficar certo. Não fica, ninguém vai perceber, não vou chorar, tá tocando the verve lá embaixo, começou. Respira fundo. Cadê meu pai?
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Ele me encontrou no meio da escada, me ajudou a descer, é salto, é cauda, buquê, tô parecendo um bolo. Filha você tá linda. Não vou chorar. Tá tocando minha música. É agora, vamos pai. Fomos. Vi dezenas de rostos, até achar o Luiz. Ele tava lá, de vermelho milan, segurando pra não sorrir. Ele é assim, né. Meu pai me deu um beijo no rosto, o Luiz me deu um beijo na mão e o Padre começou a falar. Eu não cai, não chorei, até aqui tá bom.
Alianças. Benção. Beijo. Cumprimentos (ao som de i'll be there for you), saída. Mil e uma fotos na mesa do bolo. Sede. Me traz uma cerveja enquanto eu tiro foto? Opa, ótimo. Mais fotos. Padrinhos, pais, avós, noivinhos. Subimos, uma mesa de jantar só pra nós dois. Comi meia pizza (que deselegante), tomei cerveja, suco, roubei brigadeiros da mesa de sobremesa. Ok, agora a festa.
Entramos. Retrospectiva. Ri, chorei, apertei a mão do Luiz. Valsa. Dancei com meu pai primeiro, what a wonderful world, ele adora essa música. Foi bem emocionante. Filha, você é a noiva mais linda que eu já vi. Tô apaixonado por você de noiva. Ele chorou, eu chorei. Te amo.
Valsa com o Luiz. Crazy começou a tocar e ele começou a rir: É essa a música que você escolheu??? Mas a gente vai dançar os sete minutos todos?? A gente nem sabe dançar!! Demos um jeito, dançamos, e parecia que só existia nós dois lá, na festa, no mundo. <3
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| Pai, não chora... |
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| Feliz |
Cumprimentei a festa inteira, tomei umas caipirinhas, e eu olhava pra festa e pensava: eu sonhei isso. Sonhei meses com isso e tá acontecendo. E tá lindo. Eu olhava pra minha mão esquerda o tempo todo, achando estranho a presença da aliança lá. E eu olhava pro Luiz de longe, fazendo farra na gravata, se divertindo, comemorando. Comemorando que agora somos uma família, eu e ele. Foi lindo. E não poderia ter sido melhor.
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| Meus pais <3 |
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| Jogando o buquê |
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| Lindos! |
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| Amor em família |
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| É meu! |
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Parar no posto para abastecer e aceitar que o frentista lave o vidro do carro. Uma faixa de sabão, outra faixa de sabão, última faixa de sabão. O vidro que tava sujo agora é só sabão. Ele joga água e o sabão vai embora, e as gotinhas ficam apostando corrida pra ver quem chega no final primeiro. E aí vem a melhor parte. Com o rodinho, ele tira toda a bagunça. Expulsa a água pras laterais, e elas morrem evaporadas porque o carro tá quente. Uma faixa do rodinho, duas, três, acabou. Tá limpo, tá seco. Agora é só sujar de novo.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Sábado passado, voltando pra casa de comprinhas na beleza da 25, parei no farol. Um homem estava pedindo dinheiro para os carros, e ninguém deu. Ele não tinha os dois braços, usava uma camisa com bolso para quem quisesse colocar as moedinhas. Chegou perto da minha janela, pediu dinheiro, eu disse que não tinha. Eu tinha uma garrafa de água na mão, já na metade, ele olhou e disse: "Você pode me dar um pouco de água? O sol tá tão quente...". Como ele não tinha os braços, eu dei água na boca dele. O farol abriu e eu chorei.
Tanta gente que passa necessidade. Eu passo sede porque tenho preguiça de levantar e dar oito passos até o bebedouro. Eu ando com meu allstar encardido e velho mesmo tendo vários pares de sapatos novos e bonitinhos no armário. Eu acordo de noite com frio e pego mais uma coberta no armário. Eu reclamo de andar no carro de trabalho dos meus pais porque o carro de passeio é mais confortável.
Tanta gente que não tem nada. E eu tenho tudo.
Tanta gente que passa necessidade. Eu passo sede porque tenho preguiça de levantar e dar oito passos até o bebedouro. Eu ando com meu allstar encardido e velho mesmo tendo vários pares de sapatos novos e bonitinhos no armário. Eu acordo de noite com frio e pego mais uma coberta no armário. Eu reclamo de andar no carro de trabalho dos meus pais porque o carro de passeio é mais confortável.
Tanta gente que não tem nada. E eu tenho tudo.
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
que bom que você existe.
Falar de quem a gente ama é difícil. Falar de quem a gente ama há tempos, é um pouco mais.
No começo do namoro era fácil. Frio na barriga, expectativa, descobrindo coisa nova um do outro todo dia. Depois de alguns anos, a gente sabe basicamente tudo um do outro. A quantidade que a pessoa come, o jeito que ela dorme, quanto tempo ela demora no banho, o quanto ela sabe ser chata quando quer. Amar alguém no começo, quando você só conhece o que a pessoa tem de bom, é fácil. Continuar amando enquanto você começa a reparar nas imperfeições que é difícil. Elas sempre estiveram lá, mas o amor é uma coisa tão linda que espera ficar forte o suficiente pra permitir que você veja e saiba aceitar.
Mas a gente acaba que se perde na rotina. Não tem jeito, é inevitável. A gente mergulha nesse dia a dia maluco e às vezes acha que vai se afogar no meio de tanto problema. É o pedreiro que faltou, o cheque que voltou, a conta que tá negativa, o trânsito que tá pesado, o chefe enchendo o saco. E um dia, você vê a pessoa de longe, conversando com alguém e pensa, cheia de orgulho, que aquela pessoa ali, faz parte de você. E melhor ainda, que você faz parte dela também. Que em cada palavra que ele fala, cada pensamento, existe um pedacinho de você. E que essa pessoa está do seu lado. Literal e metaforicamente. A pessoa está ali, para evitar que você se afogue ou para se afogar junto com você, não importa.
Que bom que você existe.
Feliz aniversário. <3
No começo do namoro era fácil. Frio na barriga, expectativa, descobrindo coisa nova um do outro todo dia. Depois de alguns anos, a gente sabe basicamente tudo um do outro. A quantidade que a pessoa come, o jeito que ela dorme, quanto tempo ela demora no banho, o quanto ela sabe ser chata quando quer. Amar alguém no começo, quando você só conhece o que a pessoa tem de bom, é fácil. Continuar amando enquanto você começa a reparar nas imperfeições que é difícil. Elas sempre estiveram lá, mas o amor é uma coisa tão linda que espera ficar forte o suficiente pra permitir que você veja e saiba aceitar.
Mas a gente acaba que se perde na rotina. Não tem jeito, é inevitável. A gente mergulha nesse dia a dia maluco e às vezes acha que vai se afogar no meio de tanto problema. É o pedreiro que faltou, o cheque que voltou, a conta que tá negativa, o trânsito que tá pesado, o chefe enchendo o saco. E um dia, você vê a pessoa de longe, conversando com alguém e pensa, cheia de orgulho, que aquela pessoa ali, faz parte de você. E melhor ainda, que você faz parte dela também. Que em cada palavra que ele fala, cada pensamento, existe um pedacinho de você. E que essa pessoa está do seu lado. Literal e metaforicamente. A pessoa está ali, para evitar que você se afogue ou para se afogar junto com você, não importa.
Que bom que você existe.
Feliz aniversário. <3
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Falso Brilhante (Carpinejar)
Há o condicionamento de que amor mesmo, de verdade, é gastar metade do salário para a esquadrilha da fumaça assinar o nome da namorada pelos céus de Porto Alegre.
Temos uma noção de que amor mesmo, de verdade, é exibicionista. Depende de surpresas públicas de afeto como serenata na janela, carro de som, anúncios na TV, outdoors com pedido de casamento.
Mulheres e homens se desesperam por um amor público, encantado, de estádio cheio, e cobram provas mirabolantes de seus parceiros. Reclamam da rotina, da previsibilidade, e exigem declarações barulhentas para despertar a inveja do próximo.
O amor espalhafatoso recebe a fama, mas o amor contido é o mais profundo.
Ao procurar o amor empresarial, desprezamos o amor funcionário público, que atende às ligações e escreve nossos memorandos.
Ao perseguir o amor de cinema, desdenhamos o amor de teatro, de quem encena a peça todo dia ao nosso lado, sempre com uma interpretação nova a partir das falas iguais.
Ao cobiçar o amor sensual de lareira e restaurante, apagamos a delícia de comer direto nas panelas, sem pratos, sem medo do garçom.
Ao perseguir a aventura, negamos a permanência.
Preocupados em ser reconhecidos mais do que amar, esquecemos a verdade pessoal e despojada do nosso relacionamento. Recusamos o amor constante, o amor cúmplice.
Não valorizamos a passionalidade silenciosa, a passionalidade humilde, a passionalidade generosa, a passionalidade tímida, a passionalidade artesanal.
O passional pode ser discreto na aparência e prático na ternura.
O amor mais contundente é o que não precisa ser visto para existir. E continuará sendo feito apesar de não ser reparado.
O amor real é secreto. É conservar um pouco de amor platônico dentro do amor correspondido. É reservar as gavetas do armário mais acessíveis para as roupas dela, é deixar que sua mulher tome a última fatia da pizza que você mais gosta, é separar as roupas de noite para não acordá-la de manhã. E nunca falar que isso aconteceu. E não jogar na cara qualquer ação. E não se vangloriar das próprias delicadezas.
Buscá-la no trabalho é o equivalente a oferecer um par de brilhantes. Esperá-la com comida pronta é o equivalente a acolhê-la com um buquê de rosas vermelhas.
São demonstrações sutis, que não dá para contar para os outros, mas que contam muito na hora de acordar para enfrentar a vida.
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